
“No horizonte do mundo de Sansão não há ninguém minimamente parecido com ele. Nesse sentido, ele vive e age num espaço vazio.” Esta citação é do curto, mas rico livro de David Grossman, Mel de Leão (tradução de Tova Sender, Companhia das Letras, 131p.). O volume faz parte da coleção Mitos, que reúne autores de vários países; já foram editados internacionalmente títulos sobre Penélope, Minotauro, Atlas e Agnus (no Brasil não foram editados ainda os dois últimos). Segundo informações de meados do ano passado, Milton Hatoum estava incumbido de escrever sobre um mito brasileiro. Em Mel de Leão, o israelense Grossman interpreta a figura de Sansão, enviado para libertar o povo de Deus não através de sermões mas por uma força física extraordinária. Como se trata de alguém designado divinamente, é automático ver Sansão como livre de qualquer dubiedade, apenas como uma peça funcional de um esquema superior. Esse é justamente o caminho inverso de Grossman, ele se volta com cuidado ao texto bíblico (Juízes 13-16) e explora um personagem não compreendido pelos seus pais e pelo seu povo, e, mais grave, um personagem cuja missão se cumpre à medida que ele é traído na sua busca pessoal por união. Trata-se de um destino superior que não se faz linearmente, mas através da dissonância.
Um risco de propostas como a dessa coleção, é que se caia num revisionismo simplista, em que basta uma inversão de sinais. O esforço de Grossman se afasta disso, mesmo que não se concorde com um ou outro desenvolvimento, é fácil admirar o fôlego de sua análise e o sabor literário do texto. A passagem que mais me impressionou refere-se ao enigma que Sansão propõe aos filisteus: “do que come saiu comida, e do forte saiu doçura” (Juízes 14). A caminho da cidade da mulher filistéia que havia ”agradado a seus olhos”, Sansão mata um leão que o atacou. É a primeira vez no texto bíblico que a sua força é demonstrada. Passando depois pelo mesmo caminho, justamente para se casar, ele se desvia para ver o corpo do leão e percebe na boca do animal abelhas e um favo de mel. Ele come esse mel e, sem contar o ocorrido, também o oferece aos seus pais. Durante o casamento, ele faz uma aposta a seus convivas filisteus tendo vestimentas como prêmio. Para vencer, eles precisam decifrar o mencionado enigma até o fim dos sete dias de comemorações. Grossman salienta que não há como os desafiados resolverem essa charada, ela não tem uma natureza lógica e nem se baseia em experiências comuns; ela se refere sim a um evento singular e solitário, o qual revela a excepcionalidade de Sansão. Para os filisteus, o enigma é puramente absurdo – lembrei-me automaticamente de Kafka e de seus textos como Fábula Curta, Diante da Lei ou Das Alegorias. Grossman: “parece que não existem muitas coisas que podem enlouquecer tanto uma pessoa quanto o abuso contínuo de uma charada cuja solução é impossível”. O primeiro embate físico de Sansão com os filisteus surgirá dos desdobramentos desse episódio.
Sobre as imagens do post, a primeira, uma ilustração de Leighton, lembra-me da surpresa que eu tinha ao conhecer os episódios violentos da Bíblia. A xilogravura de Carolsfeld, terceira imagem, é igualmente forte, mostra uma expressão dura e inapelável na face de Sansão em meio ao caos que ele provoca (ver versão ampliada). Essas duas imagens fornecem um contraponto perfeito às duas de Chagall, parte de uma série temática sobre a Bíblia, composta por 105 gravuras coloridas à mão. Na primeira aqui colocada, Chagall inspirou-se adicionalmente no texto bíblico que diz que Sansão despedaçou o leão “como se fora um cabrito” (Juízes 14). Comparar as 4 imagens sugere que interpretações novas não tomam simplesmente o lugar das antigas; novas e tradicionais parecem, ao menos nesse caso, reforçar a dramaticidade umas das outras.
